Sete anos após o início das incursões de grupos armados ligados ao Estado Islâmico, a paz continua longe de ser alcançada no norte do país. Um relatório divulgado esta sexta-feira por Ben Saul, Relator Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a protecção dos direitos humanos na luta contra o terrorismo, conclui que uma vitória estritamente militar em Cabo Delgado não é iminente, defendendo negociações para travar o conflito.
O documento surge após uma missão de trabalho a Moçambique, realizada entre 4 e 14 de Agosto. Na avaliação do perito, a violência intensificou-se no último ano, com o aumento da frequência, gravidade e dimensão dos ataques contra a população civil e forças de defesa, mantendo o cenário de decapitações e destruição.
Estratégia militar sob escrutínio
Apesar do apoio das forças ruandesas — destacadas na província desde 2021 — e da União Europeia, o relatório critica a actuação no terreno. Saul caracteriza a postura actual das Forças de Defesa e Segurança (FDS) e dos seus aliados como de «defesa ofensiva», em vez de uma perseguição activa e contínua aos focos rebeldes. Embora a táctica retenha as hostilidades de forma temporária, abre brechas para que os insurgentes se reorganizem e mantenham a capacidade ofensiva.
Impacto humano e económico
Com base em dados da organização ACLED citados no relatório, o balanço da crise é pesado:
Vítimas mortais: 6.632 mortes registadas entre 2017 e meados de 2026, das quais 2.772 eram civis.
Deslocados: Cerca de 1,5 milhões de pessoas forçadas a abandonar as suas zonas de origem.
Assistência humanitária: Estima-se que 1,7 milhões de cidadãos necessitem de apoio urgente em 2026.
Além do drama humanitário — marcado pela perda de terras, meios de subsistência e separação familiar —, o conflito continua a ameaçar investimentos cruciais na bacia do gás natural, onde operam multinacionais como a TotalEnergies, ENI e ExxonMobil.
O especialista lembra que os relatores independentes actuam sob mandato do Conselho de Direitos Humanos da ONU, pelo que as conclusões apresentadas representam avaliações técnicas e não a posição oficial do organismo internacional.
Comentários
Enviar um comentário